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III Feira de Ciências e Sementes indígenas acontecerá em maio de 2014

Já iniciaram os preparativos para a III Feira de Ciências e Sementes dos Povos Indígenas de Roraima.  A Feira ocorrerá no feriado de 01 a 04 de maio de 2014, com o lema “A tradição da semente sustenta o povo”. O Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol – CIFCRSS já começa a se preparar para mais essa edição da Feira, que dessa vez contará com um dia a mais de atividades, e novidades como mini cursos.

As escolas e comunidades já podem começar a guardar suas sementes e se programar para a III Feira. A divulgação do regulamento e inscrições ocorrerão no início do próximo ano, e todos os povos indígenas de Roraima estão convidados. Além de estudantes e professores, serão muito bem vindos os agricultores/as e pessoas mais experientes das comunidades, pois são os que possuem o importante conhecimento que possibilitou a criação, manutenção, e multiplicação da ampla variedade de sementes tradicionais.

Preparativos para produção de mudas em comunidades do Amajari

As comunidades indígenas Guariba (TI Araçá) e Aningal (TI Aningal), ambas no município Amajari-RR, já iniciaram atividades em seus viveiros para produção de mudas a serem plantadas no inverno de 2014. Na comunidade Guariba, agricultores estão reformando o viveiro e iniciarão coletas de sementes, especialmente do pau-rainha (Centrolobium paraense) que começa essa época a cair na mata. O esterco para uso no viveiro foi proveniente do retiro Paraíso, uma das fazendas de gado da comunidade.

Atividades no viveiro da EEI Inácio Mandulão – comunidade Aningal

Na comunidade Aningal, o esterco para produção das próximas mudas também já foi providenciado nos retiros Santa Rosa e em uma fazenda vizinha. O viveiro na Escola Estadual Indígena Inácio Mandulão será ampliado para a produção de mais mudas de espécies madeiráveis e fruteiras. Para isso já começou a coleta de pau-rainha e outras sementes para a próxima safra de mudas.

Árvores madeireiras e fruteiras plantadas no maracujazal

A agrofloresta implantada esse ano junto com o maracujazal da escola também está sendo manejada, com adubação com esterco e pó de rocha, e muita palha ao redor das plantas para “aguentar” o forte calor e seca do verão dos próximos meses. O manejo do maracujá contou com a colaboração do Sr. Sebastião, que veio da comunidade Guariba para conhecer as experiências no Aningal, e compartilhou seu conhecimento sobre poda e produção do maracujá. Além de todas as atividades práticas, o tema agroflorestal foi abordado em uma apresentação pela prof. Rachel.

Em 2014 os plantios agroflorestais serão ampliados nessas comunidades, inserindo árvores madeireiras, frutíferas e medicinais junto com espécies agrícolas em roças e outros locais, como caiçaras.

Cooperação entre comunidades – Sr. Sebastião, da comunidade Guariba, compartilhando seu conhecimento sobre manejo do maracujá com estudantes da comunidade Aningal

Estudo sobre caiçaras mostra os benefícios do esterco bovino aos solos do Lavrado

A estudante de mestrado do INPA Ludmilla Gonçalves está terminando de escrever sua dissertação, em que estudou as “caiçaras” indígenas: áreas de currais temporários para onde o gado é levado a noite por um certo período, acumulando grande quantidade de esterco e enriquecendo o solo, o que possibilita o plantio de várias espécies no Lavrado (especialmente agrícolas e fruteiras). No caso desse estudo, as caiçaras são localizadas em fazendas (também chamadas de “retiros”) da comunidade indígena Aningal (TI Aningal, Amajari): retiros Saúba, Rebolada e Aningal. Nesses locais a comunidade realiza o plantio não dentro, mas ao lado da caiçara, intencionalmente na parte mais baixa do terreno, para onde o esterco escorre ao longo do tempo.

Área de plantio ao lado de caiçara de 3 anos no “Retiro Saúba”, comunidade Aningal

Coleta de solo em área de plantio ao lado da caiçara – Retiro Rebolada

Foram coletadas amostras de solos tanto dentro, quanto na área de plantio ao lado da caiçara, e também em área de Lavrado não influenciada pela caiçara (“testemunha”). Houve grande aumento de macro e micronutrientes, especialmente, cálcio, magnésio, potássio, fósforo, manganês e ferro e redução do alumínio tóxico, pela adição da matéria orgânica. Essas mudanças foram maiores nos solos com maior teor de argila, como o do retiro Saúba, devido a maior capacidade de retenção dos nutrientes nesses solos do que nos solos arenosos, como os dos retiros Rebolada e Aningal.

É importante destacar que existem caiçaras/currais antigos como a Rebolada (entre 7 e 10 anos) e Aningal (entre 14 e 18 anos) e mais novos, como a Saúba (entre 2 e 7 anos), em todos esses casos já houve tempo para o esterco escorrer e beneficiar a área ao lado da caiçara na parte mais baixa do terreno. Em outras comunidades, têm-se experimentado com sucesso também o plantio não ao lado, mas dentro da área de caiçaras recém-instaladas. Nesse caso após o plantio, que é permanente, o gado não mais pode entrar na área, sendo construída uma nova caiçara.

Os currais e caiçaras possibilitam acumular até mais esterco do que o necessário para o plantio naquela área, sendo assim é uma fonte de adubo para outros plantios e hortas da comunidade, bem como para comercialização. Resultados parciais foram apresentados para a comunidade Aningal, e assim que finalizar a dissertação, Ludmilla retornará para apresentar os resultados completos à comunidade, aos parceiros e organizações indígenas envolvidos.

Esterco acumulado na caiçara sendo ensacado para ser transportado e utilizado em outras áreas