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Povos indígenas de Roraima realizam terceira edição da Feira de Sementes e Ciências Tradicionais

A defumação tradicional pela pajé Mariana marcou a abertura da III Feira (Foto: arquivo IW)

No feriado entre 1 e 4 de maio de 2014 ocorreu mais uma edição da Feira de Ciências e Sementes dos Povos Indígenas de Roraima, esse ano com o lema “A tradição da semente sustenta o povo”. Agricultores, estudantes e professores das etnias Macuxi, Wapixana, Wai Wai e Yanomami se reuniram para trocar sementes e conhecimentos, na terceira edição da Feira realizada no CIFCRSS – Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, comunidade Barro, através de uma iniciativa do CIR – Conselho Indígena de Roraima, em parceria com o INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/Iniciativa Wazaka’ye e Diocese de Roraima e apoio da FUNAI, UFRR, CIMI, TDH, ISA e CESE.

Além de participantes de 6 terras indígenas de Roraima, também estiveram presentes representantes do povo Waujá do Mato Grosso e Tingui-Botó do Alagoas, representando, respectivamente, a rede de sementes do Xingu e a APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo).

Houve uma grande diversidade de variedades tradicionais na feira, dentre sementes, manivas, mudas etc – só a comunidade Maturuca trouxe cerca de 100 variedades de várias espécies de plantas, e as comunidade Malacacheta e Mangueira, cerca de 50 variedades cada.

Após a chegada, acolhida e apresentação dos participantes no dia 1, o segundo dia de evento começou com a abertura oficial com defumação de maruai pela pajé Mariana Tobias, apresentação das instituições presentes, e a mesa com convidados indígenas e não-indígenas. Dentre os convidados indígenas, a acadêmica e líder do centro acadêmico do curso em gestão territorial indígena da UFRR, Marizete de Souza lembrou que já anos atrás o CIR realizou o primeiro levantamento de variedades tradicionais da agrobiodiversidade na TI Raposa Serra do Sol; já o coordenador do CIFCRSS Edinho Batista colocou a importância do papel desta escola no processo de conservação dessas variedades; em seguida o membro da Rede de Sementes do Xingu Acari Waujá relatou a experiência de seu povo como integrantes desta rede, que promove trocas e encomendas de sementes de árvores e outras plantas nativas no bioma cerrado; e finalizando, Marcos Sabarú e Ricardo Campos enfatizaram a importância das sementes tradicionais no processo de luta pela terra.  Já dentre os convidados não-indígenas, o biólogo Dannyel Sá do Instituto Socioambietal – ISA descreveu o trabalho da Rede de Sementes do Xingu; e a antropóloga Elaine Moreira ilustrou o trabalho do projeto PACTA/CNPq (Populações Agrobiodiversidade e Conhecimentos Tradicionais na Amazônia) com as praticas agrícolas e a agrobiodiversidade de povos indígenas e comunidades tradicionais do Rio Negro/AM, cujo sistema agrícola foi registrado como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do Ministério da Cultura.

Na mesa de abertura da III Feira, convidados indígenas e não-indígenas enfatizaram a importância das sementes tradicionais (Foto: arquivo IW).

Na parte da tarde a feira de sementes foi um momento muito especial, com a apresentação de canto ritual pela Sra. Bernaldina José Pedro, apresentação das variedades que cada comunidade trouxe, levantamento da biodiversidade e trocas, dentre muitas sementes, mudas, manivas, das várias regiões e povos presentes na feira.  Como destaque a comunidade Maturuca trouxe 15 variedades de pimenta, 10 variedades de milho, 8 de batata, 4 de arroz, de cará e de algodão, dentre muitas outras. A comunidade Malacacheta trouxe 10 variedades de bananas, 3 de abacaxi e de cana, dentre outras plantas de outras espécies. Já da região do Amajari vieram muitas sementes, além de 13 variedades de manivas. A comunidade São Miguel da Cachoeira trouxe mais de 30 tipos de manivas, já a comunidade Pium apresentou variedades de jerimum, melancia e muitas fruteiras. Os parentes Yanomami e Wai Wai trouxeram a importante diversidade de plantas das terras indígenas localizadas em áreas florestais em Roraima, diferente das outras terras presentes que se localizam no lavrado (savanas).

Alguns momentos da exposição e trocas que ocorreram na feira de sementes (Fotos: Arquivo IW e Júlia Lucia Helena Lauriola)

À noite foi realizada uma mostra de vídeos com várias experiências de resgate, valorização e multiplicação de sementes tradicionais e cultura indígena, em outras regiões do Brasil, além da apresentação do vídeo da edição anterior da feira no CIFCRSS. Entre os vídeos exibidos: O sistema agrícola tradicional do Rio Negro (IPHAN), Sementes da paixão (Articulação Semi-árido paraibano), Sementes do Futuro (Krahô), Sementes tradicionais do povo Huni Kubi (Acre), Rede de Sementes do Xingu (MT).

A Sra. Bernaldina José Pedro fez uma das falas sobre a experiência de luta dos povos indígenas de Roraima (Foto: Arquivo IW)

O terceiro dia começou com a apresentação de experiências escolares relacionadas a sementes, diversidade e práticas tradicionais pelas escolas indígenas Tobias Barreto, Bento Luis, Sizenando Diniz e Jose Alamando, além de estudantes do curso de Gestão Territorial Indígena da UFRR/Instituto Insikiran. Além de fazerem exposições sobre seus trabalhos com cartazes, fotos e relatos, essas experiências também foram colocadas em forma de cartilha preparadas por cada escola. Em seguida foi a vez dos anciãos presentes relatarem suas experiências de luta, vivência e aprendizado com a terra, a natureza e a organização indígena, com a emocionante fala do Tuxaua Manoel (comunidade Barro), Sr. Juvêncio (comunidade São Miguel da Cachoeira), D. Marciliana (comunidade Cumanã), D. Bernaldina (comunidade Maturuca) e D. Sara (comunidade Mangueira). A manhã teve fechamento com a fala do coordenador do CIR, Sr. Mário Nicácio.

Momento de apresentação de experiências escolares (Feira de Ciências) – além da apresentação oral, escolas também prepararam cartilhas (Foto: Arquivo IW)

Uma das oficinas, “Cantos e rezas tradicionais”, trouxe aos indígenas o resgate desse conhecimento (Foto: Arquivo IW)

No período da tarde aconteceram oficinas, uma novidade desta edição da Feira. Conhecedores de variadas práticas tradicionais (tecer algodão, trançar darruana, artesanato com sementes, pinturas em pano e corporal, contação de histórias tradicionais, ensinamentos de cantos e rezas, instrumentos musicais indígenas) e práticas ecológicas (produção de composto orgânico e plantio em agrofloresta) passaram seus ensinamentos aos participantes, que se direcionaram à oficina de seu interesse.

À noite aconteceram apresentações culturais dos vários participantes, com danças e teatro, e foi realizada a entrega de materiais didáticos para todas as escolas presentes, além da divulgação das escolas que terão suas cartilhas publicadas: EEI Bento Luis (comunidade São Miguel da Cachoeira/TI Raposa Serra do Sol) com a cartilha “Variedade de manivas e seus derivados” e grupo da Gestão Territorial Indígena/Instituto Insikiran com a cartilha “Itena’pi Moropai Tîmotînîpîsen Makusi – Sementes e mudas indígenas”. A edição das cartilhas está em processo e em breve serão publicadas e disponibilizadas.

Também foi entregue premiação para a maior diversidade de sementes, sendo que as comunidades Mangueira, Malacacheta e Maturuca receberam livros, e esta última foi contemplada ainda com o desenvolvimento de uma área produtiva sustentável a ser planejada em parceria entre CIFCRSS e comunidade/escola. Para fechar a noite cultural, rolou Parichara até mais de 2 da manhã!

No último dia do evento foi realizada uma visita aos setores de atividades agropecuárias do CIFCRSS, guiada pelos estudantes deste Centro. Após o encerramento, os participantes retornaram às suas comunidades.

A Feira encerrou mas as atividades no CIFCRSS continuaram, para garantir a organização, armazenamento e plantio das sementes, mudas e manivas que chegaram nos últimos dias. As engenheiras florestais Jessica Pedreira (Simbiose Agroflorestal) e Rachel Pinho (INPA) conduziram um curso de agrofloresta que incluiu o plantio das sementes, mudas e manivas que chegaram para a Feira. Muitas variedades foram plantadas nas agroflorestas do CIFCRSS, que são um banco vivo dessa diversidade, e outras sementes foram encaminhadas para o viveiro, ou para as roças comunitárias, de professores ou coordenadores do Centro.

Em curso de agrofloresta, estudantes do CIFCRSS planejam o plantio das diversas variedades trazidas para a feira de sementes, visando a conservação e multiplicação dessas variedades (Foto: Arquivo IW)